quinta-feira, 26 de maio de 2016

Capinan


 Olá, meus queridos amigos.
Para quem não conhece Capinan, uma breve biografia desse nobre escritor, poeta e letrista, numa singela homenagem do nosso "Cantinho da Literatura" e como sempre, sugiro que pesquisem mais sobre esse artista da literatura brasileira, tenho certeza que vocês não vão se arrepender; pesquisem e se aprofundem. Vale a pena.
Abraçoes da amiga Janete
 

O poeta e letrista José Carlos Capinan é baiano de Esplanada. Nasceu em 1941. Em 1963, depois de uma fase em Salvador, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou como publicitário e começou a compor.
 
 “tomara que um dia
de uma dia seja
que seja de linho
a toalha da mesa tomara que um dia
 de um dia não
 na mesa da gente
tem banana e feijão”
Gilberto Gil e Capinan
 

CAPINAN

José Carlos Capinan

Capinan por Gilberto Gil



 Conheci Capinan estre 1962 e 1963 quando, estudantes em Salvador, todos em diferentes níveis e graus, ele, eu, Caetano, Tom Zé, Torquato Neto, Waly Salomão, Duda Machado, Álvaro Guimarães, Rogério Duarte, Fernando Batinga e tantos outros vivíamos o dia-a-dia da iniciação nas lides culturais, na política estudantil, nas experiências do sexo, do amor, da aventura de conduzir-nos, num incessante entra-em-beco-sai-de-beco corpoalma a dentro de uma cidade mítica, bela e sensual, de mil histórias antes por outras gentes e poetas vividas e mais outras tantas mil histórias então por outras tantas gentes e poetas por viver.

Éramos todos, ali, um uníssono unissonho de sermos — nos tornarmos gente e poetas a um só tempo. Gente no sentido de indivíduos/átomos do coletivo povo com sua massa material em labuta e luta. (...) Poetas no sentido religioso de mensageiros de Deus, no sentido psicoanalítico de intérpretes dos sonhos, alma psicossocial, qualidade da comida, musculatura distendida após o orgasmo, palco, beijo, ideia-flor, pensamento-ungüento, carnaval, celebração piedosa, a vida no seu vale-quanto-reza, fundamentalismo espiritual.
 
 
MUDANDO DE CONVERSA  

Não me venham falar de éticas
Prefiro locomotivas
Ou motivos loucos para ser feliz
Prefiro vagões de urânio e feijão
Atravessando o país
Vendo o povo acenando lenços brancos
(Campos férteis)
Aos que vão sul a norte
Leste oeste
Trilhos novos, outros brasis

E eu menino outra vez a dar adeus aos tempos da antihistória
Quero sorrir das janelas de trens supersônicos
Em trilhos magnéticos
E novamente pensar que podemos alcançar as estrelas  
                          Inédito. Feito em Dakar, em maio/2006. 
 

MADRUGADAS DE NARCISO
 
Encalho nas madrugadas as minhas velas em farrapos
Sou eu mesmo os marinheiros
Sou eu mesmo a cabotagem
Sou eu quem traça os portos do roteiro
E torna em desespero a bússola da viagem
 
Naufrago nas madrugadas
Mas eu mesmo me faço nadar em vão até as mais
     longínquas praias
Sou eu a maresia, a calmaria e a tempestade
Sou eu mesmo a terra à vista
Inalcançável
OUTRAS CONFISSÕES
 Narciso se despe, é noite, estão ladrando os cães
Os cães provavelmente ladrarão inteiramente a noite
Enquanto a lua cheia obtura os dentes podres das canções
Um traficante boliviano
Diz alô de Amsterdã
Um fracassado governante
Diz alô num telegrama
Tudo é ópio, para um ex-marxista
Para um ex-espiritualista, tudo é transe.
Tudo é provisoriamente eterno para os poetas
Tudo é eternamente provisório para os amantes
E o poema apenas a configuração do instante
           Extraídos de Confissões de Narciso - (Civilização  brasileira, 1995)
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá eu Gostária, da sua opinião.