Olá, meus queridos amigos.
Para quem não conhece Capinan, uma breve biografia desse nobre escritor, poeta e letrista, numa singela homenagem do nosso "Cantinho da Literatura" e como sempre, sugiro que pesquisem mais sobre esse artista da literatura brasileira, tenho certeza que vocês não vão se arrepender; pesquisem e se aprofundem. Vale a pena.
Abraçoes da amiga Janete
O poeta e letrista José Carlos Capinan é baiano de Esplanada. Nasceu em 1941. Em 1963, depois de uma fase em Salvador, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou como publicitário e começou a compor.
“tomara que um dia
de uma dia seja
que seja de linho
a toalha da mesa tomara que um dia
de um dia não
na mesa da gente
tem banana e feijão”
Gilberto Gil e Capinan
CAPINAN
José Carlos Capinan
Capinan por Gilberto Gil
Conheci
Capinan estre 1962 e 1963 quando, estudantes em Salvador, todos em diferentes
níveis e graus, ele, eu, Caetano, Tom Zé, Torquato Neto, Waly Salomão, Duda
Machado, Álvaro Guimarães, Rogério Duarte, Fernando Batinga e tantos outros
vivíamos o dia-a-dia da iniciação nas lides culturais, na política estudantil,
nas experiências do sexo, do amor, da aventura de conduzir-nos, num incessante
entra-em-beco-sai-de-beco corpoalma a dentro de uma cidade mítica, bela e
sensual, de mil histórias antes por outras gentes e poetas vividas e mais
outras tantas mil histórias então por outras tantas gentes e poetas por viver.
Éramos todos, ali,
um uníssono unissonho de sermos — nos tornarmos gente e poetas a um só tempo.
Gente no sentido de indivíduos/átomos do coletivo povo com sua massa material
em labuta e luta. (...) Poetas no sentido religioso de mensageiros de Deus, no
sentido psicoanalítico de intérpretes dos sonhos, alma psicossocial, qualidade
da comida, musculatura distendida após o orgasmo, palco, beijo, ideia-flor,
pensamento-ungüento, carnaval, celebração piedosa, a vida no seu
vale-quanto-reza, fundamentalismo espiritual.
MUDANDO DE CONVERSA
Não me venham falar de éticas
Prefiro locomotivas
Ou motivos loucos para ser feliz
Prefiro vagões de urânio e feijão
Atravessando o país
Vendo o povo acenando lenços brancos
(Campos férteis)
Aos que vão sul a norte
Leste oeste
Trilhos novos, outros brasis
E eu menino outra vez a dar adeus aos tempos da antihistória
Quero sorrir das janelas de trens supersônicos
Em trilhos magnéticos
E novamente pensar que podemos alcançar as estrelas
Prefiro locomotivas
Ou motivos loucos para ser feliz
Prefiro vagões de urânio e feijão
Atravessando o país
Vendo o povo acenando lenços brancos
(Campos férteis)
Aos que vão sul a norte
Leste oeste
Trilhos novos, outros brasis
E eu menino outra vez a dar adeus aos tempos da antihistória
Quero sorrir das janelas de trens supersônicos
Em trilhos magnéticos
E novamente pensar que podemos alcançar as estrelas
Inédito. Feito em Dakar, em maio/2006.
MADRUGADAS DE NARCISO
Encalho nas madrugadas as minhas velas em farrapos
Sou eu mesmo os marinheiros
Sou eu mesmo a cabotagem
Sou eu quem traça os portos do roteiro
E torna em desespero a bússola da viagem
Naufrago nas madrugadas
Mas eu mesmo me faço nadar em vão até as mais
longínquas praias
Sou eu a maresia, a calmaria e a tempestade
Sou eu mesmo a terra à vista
Inalcançável
OUTRAS CONFISSÕES
Narciso se despe, é noite, estão ladrando os cães
Os cães provavelmente ladrarão inteiramente a noite
Enquanto a lua cheia obtura os dentes podres das
canções
Um traficante boliviano
Diz alô de Amsterdã
Um fracassado governante
Diz alô num telegrama
Tudo é ópio, para um ex-marxista
Para um ex-espiritualista, tudo é transe.
Tudo é provisoriamente eterno para os poetas
Tudo é eternamente provisório para os amantes
E o poema apenas a configuração do instante
Extraídos de Confissões
de Narciso - (Civilização brasileira, 1995)
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