Liso, leso e louco
O leitor certamente conhece a expressão que dá título a este texto.
Empregada em boa parte do país, indica que o sujeito está completamente
desprovido de dinheiro, ou, como se dizia antigamente, “pronto” (“Nesta
prontidão sem fim, vou fingindo que sou rico pra ninguém zombar de mim”, diz Noel Rosa na letra de “Filosofia”).
Pois bem, dia desses, numa conversa sobre política e economia, alguém
disse na televisão que determinada atitude era “verdadeiro crime de
lesa-patriotismo” ou “leso-patriotismo”? Num primeiro momento, pode-se ter a
impressão de que, nesse caso, o elemento correto seja “lesa”, por se tratar de
forma do verbo “lesar”. A ideia, no entanto, é outra. O que temos aí é o
adjetivo “leso”, que entra no composto e se ajusta ao substantivo que o segue.
Assim, o crime é de “leso-patriotismo”, isto é, de patriotismo “lesado”,
“prejudicado”, “ferido”, ou de “lesa-pátria”, isto é, de pátria “lesada”,
“prejudicada”, “ferida”.
Outro termo presente em compostos e causador de dificuldades é “pseudo”,
elemento de composição que vem do grego e significa “falso”.
Pois é aí que está o xis do problema: por ser semanticamente equivalente
ao adjetivo “falso”, tem-se empregado “pseudo” como se fosse o próprio
adjetivo, em frases como “Não passam de pseudos defensores dos fracos e dos
oprimidos” ou “São pseudos literatos”.
Em tese, “pseudo” é elemento de composição (elemento que não tem vida
autônoma na língua). Em sendo assim, “pseudo” recebe tratamento de prefixo, ou
seja, agrega-se a um termo posterior sem sofrer flexão: “pseudoatriz” (e não
“pseuda-atriz”). O hífen aparece apenas quando “pseudo” se junta a palavras
iniciadas com “h” ou com “o” (“pseudo-historiador”, “pseudo-humanista”, “pseudo-ortorrômbico”
etc.). Nos demais casos, a ligação entre “pseudo” e a palavra posterior é feita
diretamente (“pseudomédico”, “pseudoesforço” etc.).
Convém registrar a observação feita pelo Houaiss sobre “pseudo”:
“Modernamente, em linguagem informal, que não pertence ao dialeto culto,
vem sendo empregado como adjetivo qualificativo, mas ainda antepositivo”. Em
seguida, o dicionário dá dois exemplos: “pseudos amigos” e “pseudas flores”.
Que fique claro, pois: em linguagem culta, não se flexiona o elemento “pseudo”:
“Não passam de pseudoamigos”; “Na investigação do caso, a polícia conta com a
participação de pseudotraficantes”.
“Leso”
A palavra “leso” vem do
latim e equivale a “ferido”, “lesado”, “danificado”, “prejudicado”. Vê-se que,
nesses casos, “leso” é adjetivo, como neste exemplo do escritor Aquilino Ribeiro, citado no Aurélio: “Gama, embora ferido, um braço
leso de todo, persistia em combater”.
Em algumas regiões do
Brasil, esse adjetivo é usado na linguagem informal com o sentido de
“amalucado”, “doido”, “idiota”, o que também se vê em literatura, como neste
exemplo do genial escritor alagoano Jorge
de Lima, citado no Aurélio:
“Joaquina Maluca, você ficou lesa/não sei por que foi”.
Até a próxima semana com mais dicas de português para vocês.
Abraços da amiga Janete
Obrigada pela dica! Português é muito difícil mesmo...ainda mais agora que vulgarizaram a língua portuguesa com a internet e meios sociais!
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