quinta-feira, 24 de abril de 2014

João Paulo Cuenca


Olá, meus queridos amigos.
Para quem não conhece, assim como eu também não conhecia, vou começar com um breve resumo sobre esse conceituado escritor, seguido de um dos textos de seu livro de crônicas, "A Última Madrugada", e, claro, para quem se interessar, com certeza vai pesquisar mais sobre esse jovem escritor e cronista João Paulo Cuenca.
Uma ótima leitura, e até a próxima semana com mais um(a) escritor(a) brasileiro(a).
Abraços da amiga janete.
   João Paulo Cuenca, nasceu no Rio de Janeiro em 1978. Romancista, contista, cronista e roteirista. É autor de "Corpo presente" (Ed. Planeta, 2003) e "O dia Mastroianni" (Ed. Agir, 2007). Participou de diversas coletâneas e é colunista da revista TPM e escreve para o Megazzine do jornal O Globo. 
... Uma reunião de suas crônicas é editada e publicada em 2012, com o título "A Última Madrugada".
Em 2012 a editora LeYa publicou o livro A Última Madrugada, em que o personagem é a cidade, esta que figura como foco principal do livro. A obra reuniu crônicas publicadas em jornais entre 2003 e 2010, período em que o autor escreveu semanalmente para a Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e O Globo.
Cuenca foi selecionado em 2012 como um dos 20 melhores jovens escritores da revista britânica Granta, "que indica os nomes que irão construir o mapa da literatura brasileira". No Brasil a revista é publicada pelo selo Alfaguara, que pertence à editora Objetiva. 

"CARNAVAL JÁ PASSOU"
(Uma das 41 crônicas do livro "A Última Madrugada")
Calam os subúrbios
escuros. Calam as avenidas
fechadas. Calamos nós.
Queria escrever uma crônica para os que tiveram um carnaval triste.
Para os que acordaram na quarta-feira cinzenta, sozinhos outra vez,
com gosto de semana passada na boca. Para os que, inicialmente tímidos
e depois desesperados, viram seu amor-próprio desmoronar à
medida da sequência inevitável de foras e olhares gélidos lançados pelas
colombinas, indiazinhas, diabinhas e bailarinas.
Uma crônica para o exército de reserva dos tamborins, para os coadjuvantes
fora de quadro, para os que acabaram a folia com um zero a
zero estampado no placar e na testa. Para todas as moças que se perfumaram
e fantasiaram, e dançaram com samba no pé, e distribuíram
olhares, e viraram o pescoço, e imaginaram tanto. E nenhum único
vem cá, meu bem. E nada.
Escrever uma crônica dedicada aos pierrôs que descobriram seus
amores nas mãos do alheio, a boca aberta em outra, fazendo gargarejo
com suas lágrimas. A todos os que flagraram a desejada
beijando lividamente o anônimo, entre centenas de corpos em movimento,
sob uma tempestade de confetes e em meio à batucada
acelerada de um bloco que, a partir dali, ganhará um sentido de
vertigem insuportável. Uma crônica aos que sofreram as insídias do
amor durante o carnaval nublado, e que tudo viram com olhos metafísicos,
numa percepção aguda da realidade que o latão de cerveja
quente não vai mitigar.
Aos bêbados que choraram confissões às sombras nas paredes. Aos
que lamberam a calçada, beijaram o poste, abraçaram o gelo-baiano.
Às mulheres que por aí esqueceram calcinhas e partes irrecuperáveis
de si. Aos foliões reflexivos que, no meio do refrão, pararam e se perguntaram:
“por quê?”. Ao ritmista que atravessou, levou um pescotapa
do mestre e foi expulso da bateria no meio do desfile. Aos que se sentem
distantes de tudo, mesmo no meio da muvuca atroz do Terreirão
do Samba na praça Onze. Aos que foram barrados na porta do camarote
da cervejaria – e, principalmente, aos que entraram no camarote
da cervejaria. Às passistas de corpo esculpido carregando as flechas
de tantos olhares sabendo que nenhum, nenhum deles, realmente a
quer de verdade – pois elas, como todas as mulheres, são outras que
nenhum, nenhum deles, jamais conhecerá.
Aos melancólicos senhores e senhoras com os cotovelos apoiados nas
janelas de Laranjeiras, a quem o carnaval faz lembrar certa pureza esquecida,
de bailes em Paquetá, lança-perfumes e marchinhas de uma
cidade que não mais existe – de uma vida que se aproxima do fim.
Aos persistentes infelizes por vocação que lotaram salas refrigeradas
de cinema, livrarias e cafés tentando fingir que não houve o carnaval.
Uma crônica que faça homenagem aos rebaixados na passarela, que
preste tributo aos que tiveram o samba derrotado, que dê consolo
aos turistas assaltados e esculachados na cidade maravilha. Um alen
to aos fracos que desistiram da multidão do Cordão do Bola Preta,
que tiveram medo da Rio Branco noturna do Cacique de Ramos, que
afrouxaram a garganta no único momento que poderia salvá-los do
carnaval triste. Uma crônica que tire um pouco do peso daqueles para
quem o término do carnaval é sinônimo de nada mais restar, é caldo
de fim de feira às margens do precipício, é tristeza e medo pelo que
virá no resto do ano. Porque o ano, após o carnaval, é resto. É o pouco
que sobra.
Acabou, e sempre acaba cedo demais, chega rápido o último dia. Depois,
só no ano que vem. Já acabou: as cinzas de quarta-feira caem
sobre a última dança. Os ambulantes arrastam seus carrinhos, as baterias
recolhem suas peças, o eco das notas do samba derradeiro flutua
sobre nós. Sob o grave de um surdo solitário, acaba o carnaval. Já limpam
as ruas, os carros já vêm. Calam os subúrbios escuros. Calam as
avenidas fechadas. Calamos nós. Acabou. Logo amanhece, e já não seremos
quem fomos. Como agora, sem carnaval, vamos nos justificar?

E, até o próximo, o que será de nós?

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