quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Textos de Rubem Braga

Olá meus amigos do "Cantinho da Literatura"
Conforme eu havia prometido na semana passada, estou de volta com Rubem Braga, esse querido escritor Capixaba que foi homenageado pelo seu centenário, na Escola de Samba Unidos de Jucutuquara, de Vitória - ES.
Para completar essa homenagem, hoje vocês vão ler alguns textos das cônicas de Rubem Braga.
Abraços a todos e até a próxima quinta feira com mais um (a) escritor (a) brasileiro (a). Teremos muitas novidades.
- Edvaldo Pacote declarou: "O Rubem era um turrão, como uma veia extraordinária de humor. Uma pessoa fechada, ao mesmo tempo poeta e poético. Era preciso ser muito seu amigo para que ele entreabrisse uma porta de sua alma. Ele só era menos contido com as mulheres. Quando não estava apaixonado por uma em particular, estava apaixonado por todas.
Eu o levei para a Globo... Ele escrevia todos os textos que exigiam mais sensibilidade e qualidade, e fazia isto mantendo um grande apelo popular."
"Os jornais noticiam tudo, menos uma coisa tão banal que ninguém se lembra: a vida"
(Rubem Braga)


Carnaval 2013
Fechando com chave de ouro, o Carnaval de Vitória, a Jucutuquara entrou na avenida com o enredo "A Centenária Noite do Sabiá", uma homenagem ao cronista Rubem Braga.
(O último carro que trazia a escultura de Rubem Braga apresentou problemas. Uma das mãos do escritor quebrou antes mesmo da alegoria entrar no sambódromo. No entanto, os destaques não desanimaram e esbanjaram simpatia no término do desfile.)
O eterno e "querido capixaba da nação", como diz a letra da escola, animou os foliões do Sambão do Povo, que cantaram junto com a agremiação com direito a uma parada de destaque da bateria.

 
Símbolo da Jucutuquara, a Coruja foi destaque em um de seus carros alegóricos.
(Foto: Paulo José Leite)
As crônicas, as palavras e o amor pela escrita embalaram o desfile da Unidos de Jucutuquara. A agremiação homenageou o cronista Rubem Braga com o enredo "A Centenária Noite do Sabiá da Crônica: Entre Pássaros, Palavras, Chiquitas e Baianas", do carnavalesco Sury de Souza.


E agora, vamos ler uns trechos de algumas de suas obras:

DESPEDIDA
"E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval ---- uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito --- depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado --- sem glória nem humilhação.
Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa: que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite..."
(Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.
A OUTRA NOITE
"Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal.
Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou o sinal fechado para voltar-se para mim:
- O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?
Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra - pura, perfeita e linda.
- Mas, que coisa...
Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa.
- Ora, sim senhor...
E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um "boa noite" e um "muito obrigado ao senhor" tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um presente de rei."
Rubem Braga
O PAVÃO
"Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! Minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico."
Rubem Braga
A MENINA SILVANA
"A menina estava quase inteiramente nua, porque cinco ou seis estilhaços de uma granada alemã a haviam atingido em várias partes do corpo. Os médicos e os enfermeiros, acostumados a cuidar rudes corpos de homens, inclinavam-se sob a lâmpada para extrair os pedaços de aço que haviam dilacerado aquele corpo branco e delicado como um lírio agora marcado de sangue.
São recordações de momentos marcantes de sua infância e de sua juventude com os amigos."
AS LUVAS
"Só ontem o descobri, atirado atrás de uns livros, o pequeno par de luvas pretas. Fiquei um instante a imaginar de quem poderia ser, e logo concluí que sua dona é aquela mulher miúda, de risada clara e brusca e lágrimas fáceis, que veio duas vezes, nunca me quis dar o telefone nem o endereço, e sumiu há mais de uma semana.
São cenas que retratam o convívio diário com outras pessoas, os choques de opiniões e interesses, o dia-a-dia do trabalho de um jornalista que precisa escrever sua crônica diária para sobreviver."
O TELEFONE
"Honrado Senhor Diretor da Companhia Telefônica: Quem vos escreve é um desses desagradáveis sujeitos chamados assinantes; e do tipo mais baixo: dos que atingiram essa qualidade depois de uma longa espera na fila."
Acima de tudo, Rubem Braga tenta redescobrir o lado humano na selva urbana de pedra, busca despertar nas pessoas a amizade e cordialidade na convivência.
A crônica que segue, Cafezinho, de Rubem Braga, compõe o seu livro O conde e o passarinho & Morro do isolamento.  Rio de Janeiro: Record, 2002, p. 156-157.
CAFEZINHO
(Rubem Braga)
Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café.
Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:
- Ele foi tomar café.
A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um "cafezinho". Para quem espera nervosamente, esse "cafezinho" é qualquer coisa infinita e torturante. Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer:
- Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.
Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago:
-Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.
Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:
- Ele está? - alguém dará o nosso recado sem endereço. Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo:
- Ele disse que ia tomar um cafezinho...
Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:
- Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí...
Ah! Fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar.
Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.
Rio, 1939.
As boas coisas da vida; Homem no Mar; A Traição das Elegantes, e outras mais. Podem pesquisar, pois vale a pena.
Fiquei muito feliz com essa matéria sobre Rubem Braga e espero que vocês também tenham curtido.
Abraços da amiga Janete









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